COVID-19: Entre a Maternidade e a Medicina [artigo de opinião]

Dra. Ana Margarida Marques (médica e mãe)

Há 50 dias que a nossa vida gira em torno de um assunto comum, um vírus persistente, que não vemos mas que conseguimos sentir, na medida do nosso medo. E, de repente, toda a nossa rotina diária se diluiu em receios e dúvidas para as quais ainda não temos respostas.

Há 50 dias que os profissionais de saúde são tidos como “a linha da frente” de um campo de batalha invisível, onde passei a estar… Importa dizer que sou médica de família, aquela dos pais e dos avós, das crianças e das grávidas, e de quem todos os dias entra na minha consulta e faz querer o contacto e o carinho de um aperto de mão. Mas há 50 dias que esse contacto foi substituído por uma placa de acrílico, através da qual participo nesta luta contra a doença mas também consigo perceber a desilusão estampada nos rostos de quem está privado de abraçar as famílias e conviver com os amigos. E é separada por viseira e máscaras, que sufocam e deixam marcas no final do turno pelo qual tanto ansiamos, que percebo também o desalento dos meus colegas. Aqueles que se afastaram de quem amam na tentativa de os proteger, mas nem por isso baixam os braços ao meu lado.

Também há cerca de 50 dias saí do centro de saúde, como habitualmente, e fui buscar o F. ao berçário, mas desta vez sem saber quando o voltaria a fazer. Assoberbada por um dia difícil e de lágrima no olho, ouvi palavras de esperança de quem mo entregou, e percebi que essa era também a esperança depositada em mim, em nós. Este vírus já tinha passado a ser um baloiço, que me fazia pender entre o eco das palavras do Juramento de Hipócrates e o meu papel de mãe.

E durante estes 50 dias, entre tantas lavagens de mãos e luvas que se descartaram… o F. cresceu! Os nossos olhos puderam estar inteiramente focados neste filme incrível que é o seu desenvolvimento. Lidamos com birras, amparamos quedas, dançamos juntos, comemos frutas novas e passamos a dizer “Olá!” aos avós e familiares, através do ecrã que tenta disfarçar a saudade. O F. começou a gatinhar, venceu o receio dos obstáculos e levantou-se, começou a percorrer a casa, com o seu jeito próprio e doce, e ainda agarrado, a nós e ao tempo que lhe dedicamos.

À semelhança dos nossos filhos, durante a pandemia, também nós vencemos barreiras, fomo-nos levantando com o apoio mútuo, e crescemos. Na interpretação dos afetos e do valor das coisas mais simples. No nosso papel de pais e educadores, e na paciência e engenho com que assumimos essa tarefa diária, tão difícil quanto recompensadora. O futuro está repleto de interrogações e receamos o regresso à rotina habitual. Mas aproveitemos os ensinamentos que este isolamento nos reservou para nos renovarmos em coragem. Não baixemos a guarda nem descoremos as medidas preventivas que, com sucesso, nos trouxeram até aqui. Afinal, nesta luta comum, conseguimos ou não ser tão teimosos quanto (o amor por) os nossos filhos?

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